O porquê do perigo da ideologia

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As ideologias, em toda analise social, histórica e epistemológica causam um problema de bolha, seja por meio de confusão linguista, uma bolha do conhecimento teórico e repulso a pensamentos contrários.

Historicamente, os conceitos de esquerda e direita foram criados na revolução francesa. A esquerda tinha um caráter revolucionário, aqueles que se diziam contra o governo vigente, por exemplo os iluministas, anarquistas e todos outros de tradição liberal. A direita eram os reacionários que justificavam o governo absolutista. Após Marx houve uma ruptura dentro da esquerda, separando a esquerda autoritária da libertaria, a partir desse ponto que os conceitos parecem mudar de forma a todo o momento. Com o passar do tempo, principalmente com Michael Foucault e o surgimento dos movimentos pós-estruturalistas, os conceitos mudaram novamente de maneira brusca, esquerda seria um sinônimo de altruísmo, bondade, alguém que sente empatia por outrem, já a direita seria aquele hierárquico, aquele que quer mandar ou ser mandado, que quer oprimir ou ser oprimido, que inclusive foi o estopim para o uso abrangente do termo fascismo, já que agora não se trata mais de um modelo econômico-político, mas sim de um modo de pensar, de uma bio-política em termo foucaultianos.
“Não somente o fascismo histórico de Hitler e Mussolini – que soube tão bem mobilizar e utilizar o desejo das massas -, mas também o fascismo que está em todos nós, que ronda nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz gostar do poder, desejar essa coisa mesma que nos domina e explora”
Foucault em Introdução à vida não fascista
Para fazer uma defesa a essa mudança de conceitos, houve uma nova definição puxando os conceitos de Laissez-Faire e liberalismo clássico, liderada por escolas de economia como a escola de Chicago, escola austríaca e malthusiana de economia e filósofos como Ayn Rand e Nozick, que diziam que a direita era o individualismo, a honra, o mérito, e a esquerda era o escravo do coletivo, uma ferramenta de seus mestres.
Até chegarmos aos dias atuais onde é usado um diagrama para definir direita e esquerda, o diagrama de nolan, em que faz muitas teorias nomeadas de esquerda por seus próprios criadores, como o agorismo que de acordo com Samuel Konkin III (criador da teoria) se caracteriza como de esquerda, mas que essas ideologias dentro do diagrama se encaixam no extremo inferior direito do diagrama, visões mais coletivistas, porém conhecidas como de direita, como o integralismo e fascismo, se encaixam no extremo superior esquerdo.
Esquerda x direita ou capitalismo x socialismo é um binarismo morto e assim deve permanecer. Mesmo o triangulo de Hayek que a muito tempo já acaba com o binarismo e criava um espectro de 3 polos já está antigo se comparado com o Diagrama de nolan e mesmo o Diagrama de nolan, com 4 quadrantes já não incorpora em si coisas mais recentes como QTP, geo-mutualismo, entre outros.
Os diagramas se reduzem somente a disparidade política e econômica, atualmente, há cada vez mais a investigação filosófica por trás da posição política, criando-se infinitas novas ramificações de posições econômicas ou políticas porque agora há dilemas filosóficos internos a cada posição anterior, por exemplo, dentro do libertarianismo percebemos de cara que um anarcocapitalista jusracionalista é diferente de um anarcocapitalista jusnaturalista; Nessa progressão podemos observar que: Monismo substancial x dualismo substancial ou positivismo x racionalismo ou Deísmo x Teísmo e diversos outros debates dos âmbitos, fenomenológicos, epistemológicos, metafísicos e ontológicos interferem cada vez mais em cada espectro sócio-político-econômico. Será, daqui para frente, cada vez mais difícil discernir de forma simplista se uma posição é esquerda ou direita. Não dá mais para se debater política sem se debater filosofia, não dará mais para se debater validade ou invalidade do estado sem se debater Kant e Hume e por aí vai.
Esses testes de “posição política” não te perguntam se você é monista ou dualista substancial, se você é idealista, racionalista, mecanicista ou positivista. Se você é transcendentalista ou se é imanente. Pode parecer de cara que não existe nenhuma ligação entre política e filosofia, mas caso você for analisar um pouco mais a fundo, veremos que no debate político está também a natureza do humano, a natureza das coisas, dialética, epistemologia, metafísica, e por aí vai…por exemplo, existe o mutualista kropotkiniano e proudhoniano, suas visões mudam quase que por completo só pelo fato do Kropotkin ser mais naturalista e determinista enquanto Proudhon era metafísico tradicionalista.
A ideologia não se sustenta historicamente, vemos que uma ideologia nunca continuou imutável, sempre ao passar dos anos vão surgindo mais e mais ramificações dentro de uma ideologia no qual surge uma nova ideologia, que carrega em si o mesmo germe de auto-destruição, na qual acontecerá seja por perder sua essência a partir de revisionismos, ou de ter em si a capacidade de ramificações criando outras ideologias
O surgimento de ideologias não é só um problema dentro da história, uma ideologia cria necessariamente uma bolha pessoal, uma pessoa ao aderir a uma ideologia, procura aquilo que mais lhe agrada, e isso ainda limitado ao conhecimento dela, passando a ser um problema epistemológico.
É da natureza de uma ideologia “grudar” uma pessoa a ela, usaremos aqui então o maior exemplo de “sucesso ideológico”, o marxismo. Todo jovem logo no começo de seu aprendizado político, econômico ou filosófico se depara com o marxismo por culpa das escolas, ele primeiramente se sente capturado pelo marxismo pelo fato dela ser um sinônimo de uma boa índole, alguém que quer uma sociedade justa, igualitária, no fundo ele quer ser visto como uma boa pessoa. Mas uma criança de 10 anos não tem ideia de suas próprias convicções certo?
Ao jovem ir deixando de ter uma mentalidade infantil, e conhecendo a si mesmo, ele começa a conhecer também seus ideais próprios, onde por exemplo ele descubra que é a favor dos ideais de liberdade econômica, e digamos que em algum momento depois de pesquisas ele ache o anarcocapitalismo, já é uma evolução, agora, percebamos que ele continua preso a algo, porém esse algo é individualizado, deixando ele ainda mais preso à essa ideologia, afinal essa é a ideia “dele”. E no caso dos ancaps é ainda pior, eles possuem um binarismo ideológico forte, seja por Ayn Rand (individualista x coletivista) ou Hoppe (Ancap x Socialista) rejeitando de cara qualquer outra ideia exterior que confronte o seu ego, sendo a dialética apenas interna e não externa (jusracionalista x jusnaturalista)
Para ancaps chamarem tudo de socialismo deveriam demonstrar que a essência de tudo é a mesma coisa, fazendo o princípio de identidade valer. Oque os ancaps fazem é observar fenômenos parecidos em tudo, ou “acidentes”, e jogar tudo no mesmo saco confundindo fenômenos com fatos e acidentes com essências.
É só aplicar a regra do princípio de identidade, não contradição e terceiro excluído e verá que a mania ancap de jogar tudo que discorda dele no mesmo saco é uma aberração logica.
Por fim, a ideologia é uma bolha de noesis, nos impedindo de fazer um processo dialético, de transcender o nosso eu, de buscar a verdade, na ideologia nos acomodamos a uma ideia nossa. A virtude não está em ter uma opinião própria, está em buscar a verdade, está em testar uma ideia ou princípio com outras ideias e principios, e ver qual sobrevive e esse conflito de ideias, uma dialética, buscar a sintese. Todo o processo ideológico tira o processo dialético do conhecimento, ele cria uma bolha de noesis nos distanciando cada vez mais do noema e criando um porto seguro do conhecimento.

Para entender melhor como esse processo funciona, precisamos ir para as bases do cognitivismo e fenomenologia. Para um melhor entendimento, ilustraremos os processos da mente.

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Perceba que a luz da lanterna passa por uma fresta de uma caixa onde estamos. A lanterna (A) é a metafísica, é o plano onde estão os entes reais. A luz da lanterna (B) é a informação pura, o conhecimento verdadeiro, o próprio ente real ou a coisa-em-si. A caixa (C) é o limite do conhecimento. O objeto (D) que esta dentro da caixa é a nossa percepção. E o pequeno raio de luz que passa pela caixa (E) é o fenômeno, uma parte da coisa-em-si.

Nós (D) só percebemos parte das coisas-em-si seja pelo fato de estarmos limitados pelos nossos sentidos, que são os limites do nosso próprio conhecimento (C), por exemplo só conseguimos enxergar uma parte limitada do espectro das ondas eletromagnéticas que chamamos de cores. Só conseguimos ouvir ondas sonoras de frequência e amplitude específicas. Só conseguimos sentir o cheiro e o gosto de substâncias químicas específicas. E só conseguimos tocar objetos macro-físicos de textura e dimensão específicas. Isso cria o fenômeno, a pequena parcela de luz que ilumina o interior da caixa, é a coisa-em-si após a limitação dos sentidos

Nossa ideia é transformar o fenômeno num trampolim para ir além dele, para ir além da caixa. Percebamos que o fato do fenômeno ser parte da coisa-em-si não o transforma em uma mentira, o fenômeno que se apresenta para nós não é uma ilusãoO fenômeno é a própria coisa-em-si como percebida por nós, podemos então usar ele para chegarmos a um valor real por meio de induções, onde no nosso exemplo, poderíamos usar o fato de estarmos recebendo uma luz dentro da caixa para intuir de onde esta vindo essa luz, e por meio de princípios lógicos (como o da contradição, terceiro excluído) faremos uma decomposição e chegaremos a um resultado aproximado, onde veremos que a luz não esta só na caixa, por conseguinte, ela vem de outro lugar, só por isso já percebemos que existe necessidade na existência de um plano fora de nós, e agora basta analisarmos baseado nas nossas apreensões da luz, seu angulo, sua intensidade entre outros, e imaginar coisas que poderiam emitir a luz daquela maneira. Em algum momento você chegará no em um resultado aproximado de uma lanterna.

O processo ideológico se baseia em ficar fazendo juízo de valor em cima de outros juízos de valor o que não carrega nenhum juízo de fato em cima do objeto em si mesmo, o que transforma o conhecimento em uma aporia, que te impede de enfrentar ideias, te impede de criar um “eu fora-de-si”, de olhar para além da fresta da caixa, pois você sempre estará preso nos fenômenos, é impossível transcender seu conhecimento, é impossível buscar a verdade preso no próprio ego.

Como resposta ao efeito ideológico, apresento uma espécie de sintetismo, em que estimula a dialética tanto interna tanto externa impedindo a criação de bolhas noéticas. Devemos analisar as coisas sem cair em juízos de valor vendo todas as ideias de todos os autores, assim perceberemos que todos tem pontos negativos e positivos, faremos então um embate dialética de ideias, serão sintetizadas todas as ideias e princípios que prevalecem deste conflito, assim possibilitando uma busca pela verdade, como um cálculo intuitivo, onde partimos de preceitos simples e decompostos para chegar em resultados complexos.

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